Rafael mostrou-me esta música uma noite no FeitiçoMineiro. Disse a elequeeraimpressionante- mentemineira no modoque tocou. Lembrou-me o Toni- nho Horta. Estou certoque o Rafael vai se tornarnome de escola (linhagem) de vi- olão. Comotoca o mole- que!
Jácomtítulo, não discuti. É o argumento. Falei de uma infânciaminhapoisele, muitomaisnovo, teve menoreschances de vivenciarumpassadonãotãoremotoassim. Masque a urbanidade suprimiu porlongotempo. Agora chegam estas fazendas turísticas. Não é mais a mesmacoisa, acho. Faltam bagres e águas barrentas noscórregos. Tudo é monitorado demais, acompanhadodemais, limpodemais, saudáveldemais.
Pensava emfalar de outracomposiçãomaisantiga. Mas há uma certapremênciacomrelação a esta. Foi incluída no que será o melhordisco instrumental deste ano. Embreve estará nas melhorescasas do ramo e nosmelhoresshows da cidade. GalinhaCaipiraCompleta, este o nome do quarteto. Além do Rafael parceiro, Hamilton Pinheiro (baixo), Márcio Marinho (cavaquinho) e Rafael dos Santos (bateria). Uma amostra, com o Rafael dos Anjosemprimeiroplano, pode servistaemhttp://www.youtube.com/watch?v=FLeGUuYRUGU.
No disco, e no vídeo, é nota boa pra tudo quanto é lado. Maravilhoso. E Infância está na terceira faixa. Músicos são, em larga escala, generosos: lá está o meu nome num disco instrumen- tal. De novo!
João Marinhoveio do Ceará e umdia entrou nesta minhapequenacasa. Veiocom o firmepropósito de compor. Já tínhamos trocado “figuri- nhas” em “Leitmotiv”, umtema dele e do Ocelo Mendonça. O resultado parece ter agradado, tantoqueaquinos en- contramos emdia de semana, manhãconve- niente.
Trouxe o violão e uma músicapronta. Semtítulo e semtema. “Capturei” a partituramas ponderei que poderíamos tentarcompor “a partir do nada”. É uma experiênciabastanteincomumpramim. Emgeral dedico “temposmortos” à composição.Topou. Naquele dia nasceu uma valsacruel, uma das minhaspredileções neste ritmo. Mas o assunto de hoje é “Equações”.
O amor, substantivo predominante na criaçãoartística, imperou novamente. Declaraçãodescarada de amoreterno. Dessas paraalém do tempo. Bela e romântica melodia. João me disse quejá a cantaporaí. Agradeço. Sei queele prescinde das minhasletrasporserletrista de verbocheio.
O nordeste, emgeral, nos fornece artistas ins- pirados todo o tempo. Esteveiocompleto: letra e música. E generosi- dade, pormeincluir.
Segundo meu pai, chegamos aqui em fevereiro de 1959. Minha memória, desde há muito, não registra a importância de aqui estar, de quase ser daqui. Não apreendi a cidade pela sua im- portância histórica, arquitetônica, cultural, social. Não ressenti a terra vermelha, a secura do ar, as árvores retorcidas, a vastidão do céu. Era o “normal”. Estava em volta e sobre mim. E dentro. Só adulto comecei a senti-la, após viajar alhures e poder comparar. A saga não era minha. Não tinha consciência da dimensão do intento. Aos meus coube traba- lho árduo, o dia-a-dia, o corre-corre. Não me lembro de expli- carem a importância e a grande- za do fato. Nem na escola, nem nas ruas, nem no rádio.
Adolescente, teci alguns poemas acerca. Recordo:
“...e cedo teus filhos te partirão as falanges e tu lhes agradecerá o dia da verdade comum ...”
Depois do golpe militar, creio. E aí, a vida comum: acertos, desencon- tros, filhos e trabalho, muito trabalho.
Hoje li a crônica da Conceição Freitas no Correio Braziliense. “Vi” o seu Abgail e compreendi a tristeza dele. Vejo também o passado ficando maior que o presente. Tomo posse de parte do desejo final dela para ele: vou construir uma nova cidade no meu coração. Se puder, tão ou mais revolucionária.
Plano de Voo
Letra por “encomenda”. Objetivava “vencer” o Festival de Música do SESC – Tributo a Brasília, no ano de 2004. Hamilton Pinheiro enviou a melodia dois ou três dias antes do final das inscrições. E uma sinopse (tudo “sic”, força da pressa descrita acima, é claro):
“imagine um garoto que sonhava em voar.Desde pequeno visualizava um avião desbravando o interior do país.Mas para voar ele deveria construir o avião.O avião tinha que ter alma.Tinha que ter um povo.O povo tinha que fazer parte do avião.(não sei como ele fez mas...) o sonho tornou-se realidade e (não sei como, acabou a estória).”
Bem, Célia Rabelo interpretou a música, ganhou o prêmio de Melhor Intérprete e ela, a obra, ficou com o segundo lugar no festival. Gravou-se disco, tocou em rádio, carregou sua mensagem.
Plano de Voo (a grafia na partitura é a original em respeito à época)
(para Lucio Costa)
Música de Hamilton Pinheiro Letra de Douglas Umberto de Oliveira
Eu sei que a terra é teia Que gente é grão de areia Sou o que sou Sei onde estou Eu vim de França e a França por mim passou
Eu sei que o velho freia Que o novo acende, incendeia Aviador Vamos voar Eu tenho um sonho pra inaugurar
Eu já consigo vê-la Num céu de aquarela Aviador Me dê a mão Vem conhecê-la e saber Que a cidade pode ser avião
Existe um lugar Concreto sertão Planalto avatar Espaço altar Comunhão
Toda terra tem de se completar Se quer ser nação Fiz plano de voo Para aterrissar Eu sei (a)onde vou O mundo vai melhorar
Candanguinho
O Luiz Graciliano me deu esta modinha graciosa. Pensei em JK, seu gosto por modinhas. Não sei nem bem como nem mal porquê. Pronta, quis dedicá-la ao meu irmão, Dilé, nascido em 60, nosso primeiro “candanguinho”.
Candanguinho Música de Luiz Graciliano Letra de Douglas Umberto de Oliveira
Eu vi Brasília onde era nada Mil dias antes da função Risquei o fogo nas queimadas Ainda me arde o coração A terra esturricada
Parei as águas emendadas Pus lago onde ribeirão Eu sei: O gesto excede a intenção É longa a trilha Que leva à perfeição Me fiz compositor Para contar a saga
Cavei o chão da esplanada Ergui palácios com as mãos Pousei os eixos sobre as asas Ainda me espanta a invenção Da arte concretada
Plantei o grão da utopia Sonhei um lar em comunhão Eu sei: A cria renega a criação Revoga, revisa, Recria o criador Eu fiz esta canção Para poder falar de amor Pra mostrar que nada foi em vão Pra contar a saga de um irmão
Tenho este irmão. Fizemos algumas coisas que nos transportarão pela vida. Sei só por mim, é claro. Mas creio na reciprocidade das “almas”. Sei da generosidade intrínseca que ele praticou comigo. Da recusa em deixar a minha generosidade ir além da minha capacidade momentânea. Sei da integridade dele. Princípios, é claro!
oderia ter escolhido outras composições que “nos” falam mais. Exemplo: a grande “sacação” de “Tá tudo aí”: melodia de dar inveja em Burt Bacarat (15.172.440 entradas no Google, apenas pesquisando-se “burt b”). Letra a quatro mãos, capaz de permitir que algum filho, ou uma neta “torta”, compreenda uma vida pregressa. Texto a futuro, aguardem, meus “não seguidores"! Os seguidores, se existirem, e se tudo der certo, o receberão em tempo e a contento.
Mas quis esta para começar. Porque fala de mim. Disse, uma vez, a um parceiro - aquele com quem iniciei esta viagem pelos descaminhos da “mensagem” - que achava o “eu” muito desinteressante. Continuo desconfiado. Mas parece que a “identidade” que o “outro” “alcança" através da mensagem na primeira pessoa é mais eficaz do que em outras conjugações. A conferir, ainda, apesar das inúmeras evidências (Djavan, Dorival, Nelson Cavaquinho, Chico, menos, e ainda assim amo o que ele fala)!
Queremos qualquer “amor completo”. Desconfio que podemos falhar no momento mais necessário, na parte maior que nos compete. Talvez por desconhecermos tal parte. Talvez por sermos frágeis ou insensíveis. Talvez por ser o “amor completo” tão somente impossível. Quiçá o amor seja o deixar-se ao sabor das correntes de um rio permanente, em vez de tentar subir as cachoeiras do dia de hoje.
A partitura está com algumas “intervenções” minhas: necessidade ou incapacidade de “ajustar” a letra!
Em movimento
Música de Anderson Pessoa (Caveirinha) Letra de Douglas Umberto de Oliveira
A rua pára um momento quando a pétala começa a se movimentar Tece um arco leve, quase como um ornamento preso ao ar Flutua breve e atiça o vento, se contorce ao recuar Desliza devagar Se esconde atrás de um outdoor e volta ao chão Seja o que for não passa de outra ilusão Momento vão Delírios do olhar
Eu vi o mundo em paz por mais de um segundo ao focar o céu do seu olhar Eu vi o brilho dos seus olhos os meus olhos rastrear Sutil feito um radar Senti que Deus abandonava a imensidão E punha pétalas no caos dos meus desvãos Momento vão Destinos por não se completar Movimento sem rumo ou par que por momentos fica no ar Sentimentos desencontrados que não conseguem preparar O grande encontro entre e a pétala e o ar O encantamento de se encontrar O surgimento de uma história singular
Eu sei: um momento não faz vingar A esperança de se alcançar alianças e aliados num mundo que só quer lutar Por coisas fúteis e heranças sem valor Desconfianças Desamor
Eu te procuro em movimentos Procuro a flor E o brilho nos teus olhos não traduz a força de um amor
Eu quero todos os sentidos condensados num sabor O eterno em um fator O todo ausente, feito Deus na imensidão Eu quero as pétalas voando por paixão O outdoor, o ar e o chão num só movimento
Comoquasesempre acontecia nas “aulas” com o Luiz Graciliano, ele criou o tema melódico desta músicaabstratamente, semmotivooudedicatória.
Como falei antes, valsassão boas para se colocarletraporque a prosódia (o “casamento” dos temposfortes da músicacom as tônicas das palavras) é facilitada. E aí é ouviratéque a melodia “sugira” o “assunto”.
E amor é o “assunto” maiorem 99% das canções, já ouvi dizer. Pode ser. Ele tem tantas facetas. E todas querem se expressar. Aqui, com a máscara da convenção, acolácom o escudo da raivaou da indiferença, além, vestido de adereços românticos. Masquando é que o amor se cristaliza? Quando nasce? Quando morre?
Imaginei esta mulherincapaz de entender a dimensão dos própriossentimentos. A vi empáginas de jornais, no noticiário da TV, emconversas de botequim, na boca do povo, como se diz.
É uma invençãopossível. Na vida, parece, todos passamos, aqui e acolá, pelador de uma traição, mesmoquandonão é de alguém a quem estejamos ligados peloamorcarnal. E nem é precisoque seja uma traição “de corpo”. Princípios, costumes, convicções, tudo é suscetível. É quando os nossosmonstros guardados a setechaves (re)surgem. Sobraumamormorto na vida da(o) louca(o) agonizante.
Soube, emalgumponto, que seria uma letraalgosombria. Busquei uma sonoridade geralbaseadaemfonemascom a letra “u”: ua, ura, urra, uria, etc.