sábado, 2 de maio de 2009

Infância

Rafael mostrou-me esta música uma noite no Feitiço Mineiro. Disse a ele que era impressionante- mente mineira no modo que tocou. Lembrou-me o Toni- nho Horta. Estou certo que o Rafael vai se tornar nome de escola (linhagem) de vi- olão. Como toca o mole- que!


Já com título, não discuti. É o argumento. Falei de uma infância minha pois ele, muito mais novo, teve menores chances de vivenciar um passado não tão remoto assim. Mas que a urbanidade suprimiu por longo tempo. Agora chegam estas fazendas turísticas. Não é mais a mesma coisa, acho. Faltam bagres e águas barrentas nos córregos. Tudo é monitorado demais, acompanhado demais, limpo demais, saudável demais.


Pensava em falar de outra composição mais antiga. Mas há uma certa premência com relação a esta. Foi incluída no que será o melhor disco instrumental deste ano. Em breve estará nas melhores casas do ramo e nos melhores shows da cidade. Galinha Caipira Completa, este o nome do quarteto. Além do Rafael parceiro, Hamilton Pinheiro (baixo), Márcio Marinho (cavaquinho) e Rafael dos Santos (bateria). Uma amostra, com o Rafael dos Anjos em primeiro plano, pode ser vista em http://www.youtube.com/watch?v=FLeGUuYRUGU.


No disco, e no vídeo, é nota boa pra tudo quanto é lado. Maravilhoso. E Infância está na terceira faixa. Músicos são, em larga escala, generosos: lá está o meu nome num disco instrumen- tal. De novo!



Infância


Música de Rafael dos Anjos

Letra de Douglas Umberto de Oliveira


As iscas de fé: minhoca e pão

A vara de pesca, a fita de anzol

Num rio só meu, meu poço e o meu vau

Tem pescaria

Piau fujão


Rolinhas no campo: alforje e alçapão

Um cão encharcado ao rés do paiol

Um carro de boi e um baio na mão

Tem alegria, tem fome não


Lembranças, eu sei, me dirão

Lembranças de uma infância sã


Sã de murici

Sã de mandioca e mandi

Sã de rapadura e pequi

Vida sã


Vida sã, saci

Mula sem cabeça e zumbi

Finca, pique-esconde e gibi

Vida sã


Tudo é são

Quando a infância é sã

Quando a infância tem

Inocência e alguém pra preparar...


O Senhor

A mulher

O pai

O avô

A avó

Todos os que vêm


A infância: toda essência

Do verbo estar

Num mundo pleno de inconstâncias

Sem ciência para aceitar

Que o muito é quase nada

E o nada é fachada

De um lugar

Onde a criança,

Na inocência,

Busca encontrar tudo


O tempo roçado, o tempo do grão

O tempo arado, o tempo facão

O tempo espiga, o tempo pendão

O tempo infância: nova estação


Eu sei do que falo, eu fui plantação

Bebi desse orvalho

Abri esse chão

Eu sei quanto vale a velha lição:

Infância é tudo

Tem volta não

domingo, 26 de abril de 2009

Equações


João Marinho veio do Ceará e um dia entrou nesta minha pequena casa. Veio com o firme propósito de compor. Já tínhamos trocado “figuri- nhas” em “Leitmotiv”, um tema dele e do Ocelo Mendonça. O resultado parece ter agradado, tanto que aqui nos en- contramos em dia de semana, manhã conve- niente.


Trouxe o violão e uma música pronta. Sem título e sem tema. “Capturei” a partitura mas ponderei que poderíamos tentar compor “a partir do nada”. É uma experiência bastante incomum pra mim. Em geral dedico “tempos mortos” à composição. Topou. Naquele dia nasceu uma valsa cruel, uma das minhas predileções neste ritmo. Mas o assunto de hoje é “Equações”.


O amor, substantivo predominante na criação artística, imperou novamente. Declaração descarada de amor eterno. Dessas para além do tempo. Bela e romântica melodia. João me disse que já a canta por aí. Agradeço. Sei que ele prescinde das minhas letras por ser letrista de verbo cheio.

O nordeste, em geral, nos fornece artistas ins- pirados todo o tempo. Este veio completo: letra e música. E generosi- dade, por me incluir.


Equações


Música de João Marinho

Letra de Douglas Um- berto de Oliveira


Por me somar a ti é que eu me dividi

Só por somar-me a ti me extrapolei de mim

Por te somar a mim é que eu pude desmedir

Ir além do tesão

E fechar a equação

Eu era só e só conseguia reduzir

Agora sei que o amor

Há de me expandir

Agora sei o quanto eu me desperdicei

Perdido por aí

Nas contas que errei

Quando o amanhã, enfim, conseguir me concluir

Eu ficarei em ti e assim me ampliarei

Agora somos um, expoente que acertei

A equação comum

A inevitável lei


domingo, 19 de abril de 2009

Brasília, 49 anos


Segundo meu pai, chegamos aqui em fevereiro de 1959. Minha memória, desde há muito, não registra a importância de aqui estar, de quase ser daqui. Não apreendi a cidade pela sua im- portância histórica, arquitetônica, cultural, social. Não ressenti a terra vermelha, a secura do ar, as árvores retorcidas, a vastidão do céu. Era o “normal”. Estava em volta e sobre mim. E dentro. Só adulto comecei a senti-la, após viajar alhures e poder comparar. A saga não era minha. Não tinha consciência da dimensão do intento. Aos meus coube tra
ba- lho árduo, o dia-a-dia, o corre-corre. Não me lembro de expli- carem a importância e a grande- za do fato. Nem na escola, nem nas ruas, nem no rádio.

Adolescente, teci alguns poemas acerca. Recordo:

“...e cedo teus filhos te partirão as falanges e tu lhes agradecerá o dia da verdade comum ...”

Depois do golpe militar, creio. E aí, a vida comum: acertos, desencon- tros, filhos e trabalho, muito trabalho.

Hoje li a crônica da Conceição Freitas no Correio Braziliense. “Vi” o seu Abgail e compreendi a tristeza dele. Vejo também o passado ficando maior que o presente. Tomo posse de parte do desejo final dela para ele: vou construir uma nova cidade no meu coração. Se puder, tão ou mais revolucionária.

Plano de Voo

Letra por “encomenda”. Objetivava “vencer” o Festival de Música do SESC – Tributo a Brasília, no ano de 2004. Hamilton Pinheiro enviou a melodia dois ou três dias antes do final das inscrições. E uma sinopse (tudo “sic”, força da pressa descrita acima, é claro):

“imagine um garoto que sonhava em voar. Desde pequeno visualizava um avião desbravando o interior do país. Mas para voar ele deveria construir o avião. O avião tinha que ter alma. Tinha que ter um povo. O povo tinha que fazer parte do avião. (não sei como ele fez mas...) o sonho tornou-se realidade e (não sei como, acabou a estória).”

Bem, Célia Rabelo interpretou a música, ganhou o prêmio de Melhor Intérprete e ela, a obra, ficou com o segundo lugar no festival. Gravou-se disco, tocou em rádio, carregou sua mensagem.

Plano de Voo (a grafia na partitura é a original em respeito à época)

(para Lucio Costa)

Música de Hamilton Pinheiro
Letra de Douglas Umberto de Oliveira

Eu sei que a terra é teia
Que gente é grão de areia
Sou o que sou

Sei onde estou

Eu vim de França e a França por mim passou

Eu sei que o velho freia
Que o novo acende, incendeia
Aviador

Vamos voar

Eu tenho um sonho pra inaugurar


Eu já consigo vê-la
Num céu de aquarela
Aviador
Me dê a mão

Vem conhecê-la e saber
Que a cidade pode ser avião

Existe um lugar
Concreto sertão
Planalto avatar
Espaço altar
Comunhão

Toda terra tem de se completar

Se quer ser nação
Fiz plano de voo
Para aterrissar
Eu sei (a)onde vou
O mundo vai melhorar

Candanguinho

O Luiz Graciliano me deu esta modinha graciosa. Pensei em JK, seu gosto por modinhas. Não sei nem bem como nem mal porquê. Pronta, quis dedicá-la ao meu irmão, Dilé, nascido em 60, nosso primeiro “candanguinho”.


Candanguinho

Música de Luiz Graciliano

Letra de Douglas Umberto de Oliveira

Eu vi Brasília onde era nada
Mil dias antes da função
Risquei o fogo nas queimadas
Ainda me arde o coração
A terra esturricada

Parei as águas emendadas
Pus lago onde ribeirão

Eu sei:
O gesto excede a intenção

É longa a trilha

Que leva à perfeição
Me fiz compositor
Para contar a saga

Cavei o chão da esplanada
Ergui palácios com as mãos

Pousei os eixos sobre as asas

Ainda me espanta a invenção
Da arte concretada

Plantei o grão da utopia
Sonhei um lar em comunhão
Eu sei:

A cria renega a criação
Revoga, revisa,
Recria o criador
Eu fiz esta canção
Para poder falar de amor

Pra mostrar que nada foi em vão

Pra contar a saga de um irmão


sexta-feira, 17 de abril de 2009

Em movimento



Tenho este irmão. Fizemos algumas coisas que nos transportarão pela vida. Sei só por mim, é claro. Mas creio na reciprocidade das “almas”. Sei da generosidade intrínseca que ele praticou comigo. Da recusa em deixar a minha generosidade ir além da minha capacidade momentânea. Sei da integridade dele. Princípios, é claro!

oderia ter escolhido outras composições que “nos” falam mais. Exemplo: a grande “sacação” de “Tá tudo aí”: melodia de dar inveja em Burt Bacarat (15.172.440 entradas no Google, apenas pesquisando-se “burt b”). Letra a quatro mãos, capaz de permitir que algum filho, ou uma neta “torta”, compreenda uma vida pregressa. Texto a futuro, aguardem, meus “não seguidores"! Os seguidores, se existirem, e se tudo der certo, o receberão em tempo e a contento.

Mas quis esta para começar. Porque fala de mim. Disse, uma vez, a um parceiro - aquele com quem iniciei esta viagem pelos descaminhos da “mensagem” - que achava o “eu” muito desinteressante. Continuo desconfiado. Mas parece que a “identidade” que o “outro” “alcança" através da mensagem na primeira pessoa é mais eficaz do que em outras conjugações. A conferir, ainda, apesar das inúmeras evidências (Djavan, Dorival, Nelson Cavaquinho, Chico, menos, e ainda assim amo o que ele fala)!

Queremos qualquer “amor completo”. Desconfio que podemos falhar no momento mais necessário, na parte maior que nos compete. Talvez por desconhecermos tal parte. Talvez por sermos frágeis ou insensíveis. Talvez por ser o “amor completo” tão somente impossível. Quiçá o amor seja o deixar-se ao sabor das correntes de um rio permanente, em vez de tentar subir as cachoeiras do dia de hoje.

A partitura está com algumas “intervenções” minhas: necessidade ou incapacidade de “ajustar” a letra!

Em movimento

Música de Anderson Pessoa (Caveirinha)
Letra de Douglas Umberto de Oliveira

A rua pára um momento quando a pétala começa a se movimentar
Tece um arco leve, quase como um ornamento preso ao ar
Flutua breve e atiça o vento, se contorce ao recuar
Desliza devagar
Se esconde atrás de um outdoor e volta ao chão
Seja o que for não passa de outra ilusão
Momento vão
Delírios do olhar

Eu vi o mundo em paz por mais de um segundo ao focar o céu do seu olhar
Eu vi o brilho dos seus olhos os meus olhos rastrear
Sutil feito um radar
Senti que Deus abandonava a imensidão
E punha pétalas no caos dos meus desvãos
Momento vão
Destinos por não se completar
Movimento sem rumo ou par que por momentos fica no ar
Sentimentos desencontrados que não conseguem preparar
O grande encontro entre e a pétala e o ar
O encantamento de se encontrar
O surgimento de uma história singular

Eu sei: um momento não faz vingar
A esperança de se alcançar alianças e aliados num mundo que só quer lutar
Por coisas fúteis e heranças sem valor
Desconfianças
Desamor

Eu te procuro em movimentos
Procuro a flor
E o brilho nos teus olhos não traduz a força de um amor

Eu quero todos os sentidos condensados num sabor
O eterno em um fator
O todo ausente, feito Deus na imensidão
Eu quero as pétalas voando por paixão
O outdoor, o ar e o chão num só movimento

domingo, 12 de abril de 2009

No dia em que o amor nasceu


Como quase sempre acontecia nas “aulas” com o Luiz Graciliano, ele criou o tema melódico desta música abstratamente, sem motivo ou dedicatória.


Como falei antes, valsas são boas para se colocar letra porque a prosódia (o “casamento” dos tempos fortes da música com as tônicas das palavras) é facilitada. E aí é ouvir até que a melodia “sugira” o “assunto”.


E amor é o “assunto” maior em 99% das canções, já ouvi dizer. Pode ser. Ele tem tantas facetas. E todas querem se expressar. Aqui, com a máscara da convenção, acolá com o escudo da raiva ou da indiferença, além, vestido de adereços românticos. Mas quando é que o amor se cristaliza? Quando nasce? Quando morre?


Imaginei esta mulher incapaz de entender a dimensão dos próprios sentimentos. A vi em páginas de jornais, no noticiário da TV, em conversas de botequim, na boca do povo, como se diz.


É uma invenção possível. Na vida, parece, todos passamos, aqui e acolá, pela dor de uma traição, mesmo quando não é de alguém a quem estejamos ligados pelo amor carnal. E nem é preciso que seja uma traição “de corpo”. Princípios, costumes, convicções, tudo é suscetível. É quando os nossos monstros guardados a sete chaves (re)surgem. Sobra um amor morto na vida da(o) louca(o) agonizante.


Soube, em algum ponto, que seria uma letra algo sombria. Busquei uma sonoridade geral baseada em fonemas com a letra “u”: ua, ura, urra, uria, etc.


O dia em que o amor nasceu


Música de Luiz Graciliano

Letra de Douglas Umberto de Oliveira


Nua,

Sentiu as trevas sobre a pele nua

E fez-se fera nas palavras cruas

Rasgou lençóis, cambraias, sedas puras

Às dúzias


Fúria!

De tão possessa renegou as juras

Fechou-se em rezas, pôs-se em clausura

Veto e censura


Fula,

Atirou pedras contra a luz da lua

Disse impropérios

Teceu injúrias

Rogou mil pragas

Pôs a culpa em Deus


Se escondeu noutra mulher e nela embruteceu


Fuga!

Saiu de casa numa sombra muda

Anoiteceu na escuridão das ruas

Enrijeceu nas garras das patrulhas

Das culpas


Suja,

Se acomodou em dores de viúva

E se agarrou nas coisas mais miúdas:

Vinganças surdas


Dona

De mil quimeras, filha da candura

Mulher de César, mãe da lisura

Fiel das regras que ele não cumpriu

Até o instante em que caiu o véu


Foi isto o que aconteceu

No dia em que o amor nasceu


Sempre

Se imaginou nas asas da ternura

Num sonho aguado e quase sem textura

Um Anjo Azul poupado da luxúria

Das curras


Julga

Que a verdade é pedra sem fissura

Renega o corpo no afã de núpcias:

A carne urra


Burra

Só se entrega a quem a tortura

Se faz de séria

Mente que é pura

Finge prazeres que jamais sentiu

Até o amante vir a ser só seu


Não vê o que aconteceu

Não sabe que o amor morreu