sábado, 20 de junho de 2009

Um Rio


Parece que só tenho memória visual e auditiva. Às vezes me pego tentando lembrar o porquê de tanta disminésia. Demência...? Precoce? No caso desta música - e lá vem o com- passo ¾ me visitar - não consigo recordar como en- trei “numas” de fazer uma versão para um clássico tão consagrado. Talvez, ao rever o filme “Breakfast at Tiffany´s” - vertido para “Bonequinha de Luxo” - com Leda Flora (ela, jornalista e escritora, talvez, no meu pensamento, no papel do escritor norte-americano Paul “Fred” Varjak, personagem de George Peppard, o galã), anos atrás, quiçá, ao ver-ouvir Audrey Hepburn à janela, com um violão bem brasileiro - Giannini, por certo -, tenha “baixado o santo” e tive de fazê-la (a letra).


Não é uma tradução. É uma versão e, sabe-se, há diferenças. Mas permanece o problema da valsa (o tal do ¾). Estou invocado com isto. Volta e meia, neste precário, intermitente blog, surgem memórias ¾. E tudo o que eu aprecio, em valsas - preconceituosamente, é claro - é a facilidade de se tecer letras “bem casadas”. A tão mencionada prosódia.


Ou seja: não há história para se contar a respeito desta letra. Só suspeitas. Verossímeis, claro! Rever tal filme me motivaria a tentar uma versão para “Moon River”.


Fatos reais: telefonei para Nova York. Falei com al- guém da “Famous Music”, detentora dos direitos auto- rais da obra. Telefone? --- 004-101-212-6547-433 --- (deve ser um número da- quelas centrais antigas, ainda em funcionamento, um certo “repeito tecno- lógico”, assumo). Pedi- ram-me para enviar uma carta “especificando deta- lhes” – “specifying details”, - beleive me! - números de prensagem, cantor(a), editora, sociedade recolhedora (ECAD, não sabem!). Nem responderam, é claro! Meu “caô”: produzir um disco para Célia Rabelo, cantora ainda não conhecida ao redor do mundo - o mundo não sabe o “de valor” desde Marx -, onde esta música seria, talvez, a cereja no bolo. 10.000 cópias de um disco por vir a ser ("mais-valia, diria um Marx "jazzy"). Faltou fermento ou alguém abriu a porta quando ventava lá fora. Ou acharam que eu interpretava o José da Silva Pereira, ator brasileiro, desconhecido “worldwide”, intérprete do “marido potencial” - José Luis de Villalonga (lembrem-se: a capital do Brasil, à época, era Buenos Aires), declarando, sem comprovação, grandes propriedades rurais nos pampas. Ou os pampas eram argentinos e eu nem percebi. Por certo, deduzo hoje, 10.000 discos eram e continuam sendo apenas um número abaixo do “traço” nas vendagens norte-americanas. Concluo o parágrafo: esses caras, por gringos (mas não ar- gentinos), têm muito a oferecer ao mundo. Pena que não o fazem nas coisas “de mais valor” (ex-mais-valia?).


Letra: é o meu rio: Rio Grande, Minas Gerais. São Paulo fica do outro lado. Mas quem se importa? Eles são tão norte-americanos!. Também não é o “Rio da Lua”, descrito por Johnny Mercer. No meu, não poderia existir “huckleberry friends”. Não compreendo a expressão. O dicionário urbandictionary.com traz duas definições para o termo. 1) A very special, good friend; 2) a fuck buddy (also see huckfinn and huckfinning), siginficando "we're not serious... we're just huckleberry friends.", segundo a enciclopédia wikipedia. Truman Capote escreveu o livro que dá origem ao argumento do filme. Apesar de não me parecer importante, há um problema de bissexualidade na personagem de Audrey, ou no Truman real, não entendi de novo. Talvez, também, o problema tivesse se estendido ao Johnny. Mas não ao Douglas, apesar do nome saxônico, hétero. Para fazer juz (jazz, alike), segue a letra original:


Moon River


Música de Henry Mancini

Letra de Johnny Mercer


Moon River

wider than a mile

I'm crossing you in style

someday


Oh! dream maker

you heart breaker

wherever you're going

I'm going your way


Two drifters

off to see the world

There´s such a lot of world

to see


We're after the same

Rainbow´s end

waiting round the bend

My huckleberry friend

Moon river and me


Curiosidades em relação ao filme (www.wikipedia.org e contribuições próprias):

Dirigido por Blake Edwards (Pantera Cor-de-rosa, com tema musical de Henry Mancini, as ever), deveria ter sido por John Frankenheimer. Que fez Grand-Prix, entre outros. Entrementes, Steve McQueeen, que estava escalado para co-interpretar “Breakfast at Tiffany´s” com Marylin Monroe (antes, Kim Novak foi cogitada), falhou em função de outros compromissos cinematográficos. Marylin estaria, então, com o presidente ou pegando alguns diamantes em algum lugar da América surreal. Grand-Prix, na minha opinião, deveria ter sido estrelado por Steve McQueeen, por sua verve tão automobilística quanto a de Paul Newman. Mas o foi por John Garner. Vicissitudes? Steve McQueeen, penso, poderia ter sido o escritor “Paul Varjack” ideal. Mas estava numa série de TV: Wanted: Dead or Alive. Morreu? Apesar de hétero, eu o acho um “gato”. Morto, para o cinema, mas um “gato”. Se, para a vida morto, então não era um gato: menos que sete vidas; O que me leva ao “nameless cat”. Do filme. Eram dois, ou nove, diz outro site. “Números”, diz a bíblia. Fico com o filme: “A couple” (dois) “of poor nameless slobs”. Eu e Holy Golightly (personagem). Eu, também gato, também “nameless”, e Audrey Hepburn. Em “Um Rio”. Somewhere in Minas Gerais, not the “Pampas”.


Moon River


Vesão não mais que apócrifa de Douglas Umberto de Oliveira


Um rio

Largo como o mar

Abraça o meu olhar

Por fim


Eu quis tê-lo

Eu vim vê-lo

E vê-lo é como se

Vertesse de mim


Um rio

A me desaguar

Num vale que irá

Florir


Estou bem além

Do que vem

Livre a fluir

Feliz por existir

Um rio

Em mim


sábado, 6 de junho de 2009

TESSELAS



Uma saga, a “feitura” deste disco. Eu fazia “aulas” de composição com o Luiz Graci- liano, barro primordial, aí pelos idos de 2001, 2002 e 2003. Foi quando surgiram as condições para “produzir” um disco. Senti que tinha material mais que suficiente. Diversida- de de ritmos, temas legais, abordagens, sem falsa mo- déstia, consistentes. Faltava a intérprete. Leda Flora, tessela primeira, tinha feito aulas de canto com o Luiz e sugeriu uma aluna dele: Luciana Oliveira. A procurei, expus o projeto e ela embarcou. Segunda tessela. Pedi que providenciasse os músicos, quem quisesse. Trouxe-me o Hamilton Pinheiro, terceira tessela, seu baixo, suas concepções musicais e uma nova amizade. O painel começava a tomar forma. HP carreou os outros músicos, todos de primeira linha, alguns conhecidos de outras eras. Enumero, tentando compor o mosaico “mais que bonito”: José Cabrera, Leonel Laterza, Paulo André Tavares, Sandro Araújo, Félix Júnior, Carine Correa, Anderson Pessoa, Ângela Fajardo, Sérgio Morais, Fernando Machado, Alberto Sales, Carlos Vinícius. Claro, também, técnicos primorosos e engajados, Wilson Borges e Pauly de Castro, e um fotógrafo querido, Juan Pratignestós.


E, depois dos arranjos, o paraíso dos criadores, o nirvana dos músicos: o estúdio de gravação. Só que, desde a primeira reunião “de negócios”, acertei com HP que existia a necessidade de se compor uma música ”tema”. Algo que desse a “liga”, que unisse a diversidade rítimica, melódica, temática, tudo. Para que se assomasse algo das peças soltas, as tais tesselas. E ele me apareceu, tempos depois, com a partitura ao lado. Estava escrita em 3/4 “para facilitar a leitura”, me disse. Em algum dos ensaios, descobri que tal leitura exigia uma “virada de pé” para executar o verdadeiro ritmo corretamente, o 6/8, numa “convenção”. Universo interessante, este dos músicos. HP, também descobri, parece gostar de pés, que estão na letra, mas não gosta da palavra “umbigo”, substituída na versão final por “joelhos”. Amistosa intervenção que tem me permitido cravar “ajustes melódicos” sobre outras músicas dele e deixou a porta aberta para que ele mude, sempre que quiser, minhas letras.


Sei hoje que Luciana tinha, e tem, outros dotes musicais insuspeitados. Soubera, teria estimulado participação mais aprofundada na concepção do disco. Propus até parceria musical quando soube que também criadora. Por razões que me escapam, ainda não aconteceu. Talvez por ela perceber quão promíscuo sou em termos de parcerias musicais. Seu segundo disco, homônimo, mostra a veia negra em sua plenitude: sambas, afoxés, funks, outras referências afro. Admiro e reverencio. E a verve poética? Querida, me quedo a seus pés: todo seu!


Tesselas


Música de Hamilton Pinheiro

Letra de Douglas Umberto de Oliveira


Tua carne veio dos cometas

Tua pele é vento solar

Nos teus olhos as estrelas puseram brilho

Singular


Nos cabelos meteoros dançam

Nos teus pés tem algo lunar

Asteróides giram tontos nos teus joelhos


Eu reconheço esses rastros

Teu corpo tem astros, constelações

Vejo as tesselas testando, tramando as opções


Giram quasares, planetas

Os corpos celestes tecem padrões

Cada pedaço é pausa e compasso das composições

Agora, eu percebo

O mosaico é mais que bonito

Toda vez que eu te beijo completamos o infinito