sábado, 6 de junho de 2009

TESSELAS



Uma saga, a “feitura” deste disco. Eu fazia “aulas” de composição com o Luiz Graci- liano, barro primordial, aí pelos idos de 2001, 2002 e 2003. Foi quando surgiram as condições para “produzir” um disco. Senti que tinha material mais que suficiente. Diversida- de de ritmos, temas legais, abordagens, sem falsa mo- déstia, consistentes. Faltava a intérprete. Leda Flora, tessela primeira, tinha feito aulas de canto com o Luiz e sugeriu uma aluna dele: Luciana Oliveira. A procurei, expus o projeto e ela embarcou. Segunda tessela. Pedi que providenciasse os músicos, quem quisesse. Trouxe-me o Hamilton Pinheiro, terceira tessela, seu baixo, suas concepções musicais e uma nova amizade. O painel começava a tomar forma. HP carreou os outros músicos, todos de primeira linha, alguns conhecidos de outras eras. Enumero, tentando compor o mosaico “mais que bonito”: José Cabrera, Leonel Laterza, Paulo André Tavares, Sandro Araújo, Félix Júnior, Carine Correa, Anderson Pessoa, Ângela Fajardo, Sérgio Morais, Fernando Machado, Alberto Sales, Carlos Vinícius. Claro, também, técnicos primorosos e engajados, Wilson Borges e Pauly de Castro, e um fotógrafo querido, Juan Pratignestós.


E, depois dos arranjos, o paraíso dos criadores, o nirvana dos músicos: o estúdio de gravação. Só que, desde a primeira reunião “de negócios”, acertei com HP que existia a necessidade de se compor uma música ”tema”. Algo que desse a “liga”, que unisse a diversidade rítimica, melódica, temática, tudo. Para que se assomasse algo das peças soltas, as tais tesselas. E ele me apareceu, tempos depois, com a partitura ao lado. Estava escrita em 3/4 “para facilitar a leitura”, me disse. Em algum dos ensaios, descobri que tal leitura exigia uma “virada de pé” para executar o verdadeiro ritmo corretamente, o 6/8, numa “convenção”. Universo interessante, este dos músicos. HP, também descobri, parece gostar de pés, que estão na letra, mas não gosta da palavra “umbigo”, substituída na versão final por “joelhos”. Amistosa intervenção que tem me permitido cravar “ajustes melódicos” sobre outras músicas dele e deixou a porta aberta para que ele mude, sempre que quiser, minhas letras.


Sei hoje que Luciana tinha, e tem, outros dotes musicais insuspeitados. Soubera, teria estimulado participação mais aprofundada na concepção do disco. Propus até parceria musical quando soube que também criadora. Por razões que me escapam, ainda não aconteceu. Talvez por ela perceber quão promíscuo sou em termos de parcerias musicais. Seu segundo disco, homônimo, mostra a veia negra em sua plenitude: sambas, afoxés, funks, outras referências afro. Admiro e reverencio. E a verve poética? Querida, me quedo a seus pés: todo seu!


Tesselas


Música de Hamilton Pinheiro

Letra de Douglas Umberto de Oliveira


Tua carne veio dos cometas

Tua pele é vento solar

Nos teus olhos as estrelas puseram brilho

Singular


Nos cabelos meteoros dançam

Nos teus pés tem algo lunar

Asteróides giram tontos nos teus joelhos


Eu reconheço esses rastros

Teu corpo tem astros, constelações

Vejo as tesselas testando, tramando as opções


Giram quasares, planetas

Os corpos celestes tecem padrões

Cada pedaço é pausa e compasso das composições

Agora, eu percebo

O mosaico é mais que bonito

Toda vez que eu te beijo completamos o infinito


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